9.4.11
3.4.11
Da intimidade (a) dois
Não é a primeira vez que desejo discorrer sobre a intimidade e deixo claro desde já que não se trata de um tratado (nunca pretendi deter nenhuma verdade que não as minhas.. nem tê-las como absolutas). Um analista provavelmente diria que eu só pude alcançar minha vontade quando (enfim) me permiti - e aos outros - ter intimidade. Quero crer, contudo, que intimidade não é planejada.. de repente nos damos conta dela..Não precisa fazer sentido para quem está fora.. nem ser bem estruturada na sua forma.. por isso, aí vai:
Há quem considere que, para um casal, o ato mais sublime da relação - o fim último - seja o sexo. É lá,no ato sexual, que os dois celam a união se tornando um. De fato, por alguns segundos de prazer extremo, são um só e tem, não nego.. muita poesia, beleza e naturalidade nisso. Ainda assim, eu discordo da proposição. O sexo é a forma mais primária, mais primata, mais natural, mais animal de intimidade. Apenas está secularizadamente coberta pelos véus do pudor e da vergonha. Gente ,em geral, tem vergonha de admitir que está tantas vezes mais próxima dos bichos que dos homens ditos civilizados. Faço a ressalva, entretanto, que não estou banalizando o sexo, tampouco a intimidade, e sim.. discordando do significado que lhe foi atribuido... e da falta (de significado) que hoje lhe é atribuída por tanta gente.
A verdade é que sinto-me muito mais nua (e inicialmente enrubecida) na verdadeira intimidade do que durante o sexo. Permitir que te conheçam é que é de fato estar despido diante o outro. Despido, desarmado, "cheio de amor" e deserto. Esta é para mim a verdadeira entrega: a autencidade a dois.
Ser você, essencialmente você, sem máscaras, sem se prestar a papéis programados para provocar agrado no outro, mas que em todo seu despojamento agradam. Isso é, para mim, a intimidade ideal. Pura assim ela é amizade última. Se a ela eventualmente se emprestam certas fantasias (as quais as partes sejam capazes e voluntárias de incorporar), ela se torna amizade em sintonia com o tesão .. possibilitando aos dois envolvidos uma relação aberta a trocas que não só afetivas.
Intimidade diz maturidade e confiança.
Confiança é essencial. Confiança é risco. Como se desarmar tanto e se abrir para o outro se não houver a mínima certeza que aquele outro ali não vai lhe machucar? Afinal ninguém gosta de se sentir vulnerável. Qual garantia se tem que não vão rir de você?Não vão lhe expor? Não vão lhe trair?Não vão lhe deixar? Essa certeza é, na maioria das vezes, deveras ideal. Não há garantia. E, mesmo havendo confiança, é impossível descartar a perda iminente - esse gatilho de adrenalina das relações passionais.O que não é de todo ruim, até porque, a iminência da perda é fundamental para a manutenção do desejo e do desejo de desejar. Também, para a manutenção de algum mistério.. do ´não saber o que se passa pela cabeça do outro´.. da imaginação.. da sedução.. da fertilidade criativa e regenerativa de uma relação. Ela bloqueia a acomodação. Acomodação não é sinônimo de segurança. Entreguemos-nos, portanto,antes por nós.
Aí entra a maturidade. O autoconhecimento necessário para reconhecer o que pertence à nos e o que é proveniente do outro. Nossas expectativas às vezes são tão altas ou ilusórias que não sabemos mais separar quem o outro é daquilo que nós projetamos que ele seja. Não podemos cobrar o que não nos foi ofertado.
Uma vez estabelecida a confiança no outro, na sua conduta e nas suas intenções os jogos se fazem desnecessários. Para a mulher, sobretudo, não é mais relevante fazer chantagens de si própria.. como se seu corpo fosse um troféu-objeto ao fim da partida. Repito ainda, o sexo não é o mais sublime do todo..(embora seja muito bom principalmente se houver significado alí).
Do conjunto homem-casa, o corpo é a parte mais externa ... logo.. não seria, assim,a porta de entrada? O que temos de mais precioso, a alma.. a essência.. está mais adentro. É claro que tem gente que tema passar da porta de entrada (dá um baita medo mesmo. Temos medo do que desconhecemos) e se contente só com a intimidade externa. É bom, claro que é! Acontece que chega um momento que não sacia aqueles que têm fome de (por) verdade. Há também quem começe a visita pelo interior e tenha medo de ir lá fora.. onde os fenômenos fogem do nosso controle.. e pertencem mais a natureza do que a qualquer código de conduta social.
Difícil não é ter intimidade.Não é dar intimidade. Difícil é conciliar suas diferentes facetas e compartilhá-las num dificílimo, dangerosíssimo exercício de intersubjetividade.
Há quem considere que, para um casal, o ato mais sublime da relação - o fim último - seja o sexo. É lá,no ato sexual, que os dois celam a união se tornando um. De fato, por alguns segundos de prazer extremo, são um só e tem, não nego.. muita poesia, beleza e naturalidade nisso. Ainda assim, eu discordo da proposição. O sexo é a forma mais primária, mais primata, mais natural, mais animal de intimidade. Apenas está secularizadamente coberta pelos véus do pudor e da vergonha. Gente ,em geral, tem vergonha de admitir que está tantas vezes mais próxima dos bichos que dos homens ditos civilizados. Faço a ressalva, entretanto, que não estou banalizando o sexo, tampouco a intimidade, e sim.. discordando do significado que lhe foi atribuido... e da falta (de significado) que hoje lhe é atribuída por tanta gente.
A verdade é que sinto-me muito mais nua (e inicialmente enrubecida) na verdadeira intimidade do que durante o sexo. Permitir que te conheçam é que é de fato estar despido diante o outro. Despido, desarmado, "cheio de amor" e deserto. Esta é para mim a verdadeira entrega: a autencidade a dois.
Ser você, essencialmente você, sem máscaras, sem se prestar a papéis programados para provocar agrado no outro, mas que em todo seu despojamento agradam. Isso é, para mim, a intimidade ideal. Pura assim ela é amizade última. Se a ela eventualmente se emprestam certas fantasias (as quais as partes sejam capazes e voluntárias de incorporar), ela se torna amizade em sintonia com o tesão .. possibilitando aos dois envolvidos uma relação aberta a trocas que não só afetivas.
Intimidade diz maturidade e confiança.
Confiança é essencial. Confiança é risco. Como se desarmar tanto e se abrir para o outro se não houver a mínima certeza que aquele outro ali não vai lhe machucar? Afinal ninguém gosta de se sentir vulnerável. Qual garantia se tem que não vão rir de você?Não vão lhe expor? Não vão lhe trair?Não vão lhe deixar? Essa certeza é, na maioria das vezes, deveras ideal. Não há garantia. E, mesmo havendo confiança, é impossível descartar a perda iminente - esse gatilho de adrenalina das relações passionais.O que não é de todo ruim, até porque, a iminência da perda é fundamental para a manutenção do desejo e do desejo de desejar. Também, para a manutenção de algum mistério.. do ´não saber o que se passa pela cabeça do outro´.. da imaginação.. da sedução.. da fertilidade criativa e regenerativa de uma relação. Ela bloqueia a acomodação. Acomodação não é sinônimo de segurança. Entreguemos-nos, portanto,antes por nós.
Aí entra a maturidade. O autoconhecimento necessário para reconhecer o que pertence à nos e o que é proveniente do outro. Nossas expectativas às vezes são tão altas ou ilusórias que não sabemos mais separar quem o outro é daquilo que nós projetamos que ele seja. Não podemos cobrar o que não nos foi ofertado.
Uma vez estabelecida a confiança no outro, na sua conduta e nas suas intenções os jogos se fazem desnecessários. Para a mulher, sobretudo, não é mais relevante fazer chantagens de si própria.. como se seu corpo fosse um troféu-objeto ao fim da partida. Repito ainda, o sexo não é o mais sublime do todo..(embora seja muito bom principalmente se houver significado alí).
Do conjunto homem-casa, o corpo é a parte mais externa ... logo.. não seria, assim,a porta de entrada? O que temos de mais precioso, a alma.. a essência.. está mais adentro. É claro que tem gente que tema passar da porta de entrada (dá um baita medo mesmo. Temos medo do que desconhecemos) e se contente só com a intimidade externa. É bom, claro que é! Acontece que chega um momento que não sacia aqueles que têm fome de (por) verdade. Há também quem começe a visita pelo interior e tenha medo de ir lá fora.. onde os fenômenos fogem do nosso controle.. e pertencem mais a natureza do que a qualquer código de conduta social.
Difícil não é ter intimidade.Não é dar intimidade. Difícil é conciliar suas diferentes facetas e compartilhá-las num dificílimo, dangerosíssimo exercício de intersubjetividade.
9.3.11
(Pequena reflexão) Carnaval é pura catarse social...
... Ainda bem , pois nem todos os brasileiros podem pagar a conta do analista.
Mas é claro! Que outra grande comoção social nos possibilita extravasar tanto pensamentos e desejos reprimidos no inconsciente, seguido de alívio emocional?
Eu sou fã de Caranaval! Fora o bem que ele faz as massas ou à soma dos indivíduos, ele proporciona uma melhor leitura das pessoas. Afinal, se pensarmos que no Carnaval as pessoas liberam suas vontades inconscientes sem medo de serem rotuladas (qualquer coisa,´era Carnaval´), elas acabam por serem mais autênticas e permitirem ser vistas por ângulos que ..em contextos comuns, jamais existiriam. É divertido, ou no mínimo instrutivo, ver as pessoas mais próximas daquilo que são ou que gostariam de ser. A gente descobre muita coisa ao passo o que o alívio vem com a diversão, com a música.. como o amor ao amor ( porque amor é meio e não fim).. com o amor ao fato de estar vivo e morar em um país tropical, bonito por natureza (não necessariamente ser flamengo ou ter uma nega chama Tereza). Sem falar que é impagável esbarrar em pessoas conhecidas(ou desconhecidas) com as mais sugestivas fantasias. Aquele amigo viril vestido de fada, a menina comportada de passista.. e tantos outros de personagens que gostariam de ser.. policiais, super-heroís, princesas, sex symbols e outros que habitam o imaginário nem femenino, nem masculino, mas humano.. e o melhor ( ok.. a gente acredita) é que tudo não passa de uma brincadeira.. que se acaba na quarta-feira.
Expresso aqui meu eterno fascínio por Carnaval.Para mim, sua beleza reside no fato de ser não genuína, mas tradicionalmente brasileiro; na sua alegria; na sua democracia esboçada; no seu calor; mas principalmente no fato de que , é justo no Carnaval, paradoxalmente, quando as máscaras mais caem e é por isso, por esse peso descartado, é que essa festa é permeada de uma leveza insustentável ou queira-se: sustentável... a cada ano (porque das ´cinzas´sempre é possível renascer).
Mas é claro! Que outra grande comoção social nos possibilita extravasar tanto pensamentos e desejos reprimidos no inconsciente, seguido de alívio emocional?
Eu sou fã de Caranaval! Fora o bem que ele faz as massas ou à soma dos indivíduos, ele proporciona uma melhor leitura das pessoas. Afinal, se pensarmos que no Carnaval as pessoas liberam suas vontades inconscientes sem medo de serem rotuladas (qualquer coisa,´era Carnaval´), elas acabam por serem mais autênticas e permitirem ser vistas por ângulos que ..em contextos comuns, jamais existiriam. É divertido, ou no mínimo instrutivo, ver as pessoas mais próximas daquilo que são ou que gostariam de ser. A gente descobre muita coisa ao passo o que o alívio vem com a diversão, com a música.. como o amor ao amor ( porque amor é meio e não fim).. com o amor ao fato de estar vivo e morar em um país tropical, bonito por natureza (não necessariamente ser flamengo ou ter uma nega chama Tereza). Sem falar que é impagável esbarrar em pessoas conhecidas(ou desconhecidas) com as mais sugestivas fantasias. Aquele amigo viril vestido de fada, a menina comportada de passista.. e tantos outros de personagens que gostariam de ser.. policiais, super-heroís, princesas, sex symbols e outros que habitam o imaginário nem femenino, nem masculino, mas humano.. e o melhor ( ok.. a gente acredita) é que tudo não passa de uma brincadeira.. que se acaba na quarta-feira.
Expresso aqui meu eterno fascínio por Carnaval.Para mim, sua beleza reside no fato de ser não genuína, mas tradicionalmente brasileiro; na sua alegria; na sua democracia esboçada; no seu calor; mas principalmente no fato de que , é justo no Carnaval, paradoxalmente, quando as máscaras mais caem e é por isso, por esse peso descartado, é que essa festa é permeada de uma leveza insustentável ou queira-se: sustentável... a cada ano (porque das ´cinzas´sempre é possível renascer).
24.2.11
O passageiro e a gaita
(Aposto que ele subiu na Carioca. Ele tem cara de quem vem da Uruguaiana. Não que a Uruguaiana dê cara às pessoas. Ele tem cara de Sérgio. Sergio é um nome bem de adulto.. ainda que todos os Sérgios adultos já tenham sido um dia crianças. Sérgio é um nome responsável demais para uma criança. Tenho certeza que ele veio da Rua Uruguaiana, mas não pegou o metrô lá. Preferiu a Carioca. E essa gaita? O que faz ele com essa gaita e vestido de terno? Certamente não toca por trocados. E certamente não toca há tempos. (Pausa). Até que ele não toca tão ruim assim. É Bod Dylan. Como eu já ouvi Bob Dylan. Esta é uma das melhores. Como chama mesmo É... Catch the wind. Bonita... ´in the chilly hours and minutes of eternity, I want to be in the warm part of your lovely mind.. ´ (era lovely mesmo?). (Pausa).Ele parece triste. No mínimo sério. Bob Dylan é blues e blues é música ou de reconforto ou de protesto.Idade? 48..50 talvez Ele não deve ser casado. Não tem aliança. Mas tem jeito de ser pai. Daqueles pais de fim de semana que gostam muito dos filhos, mas nunca sabem ao certo como tocá-los, que presente dar, o que dizer. Deve ser triste por isso - porque não vê os filhos e os filhos o culpam por ser um estranho. Espero que ele encontre alguém.. e que toque gaita para ela. Gaita é super legal. Que ele fique mais descolado para não envergonhar os filhos e que esses passem a gostar mais dele. Ih, caramba, tenho que descer!)
- Com licença, senhor ?
(É instigante dar vida às pessoas).
- Com licença, senhor ?
(É instigante dar vida às pessoas).
12.2.11
8.2.11
Todo amor é inventado
Nota: Para não causar uma discussão com o João Paulo, especifico que refiro aqui ao amor entre os sexos, ou melhor, o conjugal - afetivo.
Renato Russo indagou ´Quem inventou o amor?´Cazuza cantou `adoro um amor inventado´. Eles, eu , você, sua vizinha.. todos nós quero crer (mesmo sem admitir). A idéia não é dele e outros poetas (dá-lhe Rimbaud!) tão bons quanto e tão excessivos ou mais já desnudaram o assunto. (Reparem que é uma fixação comun aos poetas. Precisamente por que para se fazer poesia a experiência do amor é primeira... assim me disseram). Sou fã de ambos e concordo, a cada dia mais que o amor tal qual é idealizado só pode ser mais uma invenção social.
Acredito que invenção é fruto de duas coisas: tédio ou necessidade. O amor é o `fruto proibido´ das duas. De proibido é cada vez mais reiventado , afinal é preciso disfarçá-lo a cada vez que ameaça os valores morais e os bons costumes.
A ameaça que hoje implica mudança provém da busca de ambas as partes por um amor sem riscos. Amor tipo descartável, satisfatório e inofensivo. Os românticos feito eu (não de romantismo,sim de nostalgia),com certeza não se identificam com essa busca. É uma pena, posto que provavelmente sofreriam bem menos. Por um outro lado a intensidade lhes favorece tanto para o ruim quanto para o bom - que de bom vira fantástico, quase transcedental. São esses que se permitem ao risco e a aventura singulares e intrínsecos à alteridadade comum ao amor. Em outras palavras - é a adrenalina da montanha russa que se projeta na possibilidade da perda a cada curva - a cada passo dado e igualmente, a dúvida sobre qual passo dar. É a eterna conquista até seu fim.
Já que todas as coisas são findas mesmo, com o amor não poderia ser diferente. Por que então, para algumas pessoas está implícita a aspiração à continuidade e à permanência de laços afetivos que muitas vezes já foram desfeitos ou sequer foram atados - já que para tal, ambas as pontas devem estar envolvidas? Perdão, algumas pessoas - em geral as mulheres. Mulheres realmente são profundamente complexas e há dias que, juro, compartilho do pragmatismo masculino de (pronta-)entrega, feito Vinícius (mais um!) descreveu como a eternidade durável.
A psicanálise defende que o amor surge para complementar-nos naquilo que o sexo sozinho não é capaz de fazer.... é: aquilo que o outro não consegue dar. Normal , já que homens e mulheres não falam a mesma língua e não compreendem imediatamente as carências alheias (com excessão de Chico Buarque, que definitivamente fala as duas fluentemente.. poeta) Assim, o amor - esse amor - só é possível devido as incertezas dos encontros amorosos ( o que hoje representam possibilidades muito maiores e mais numerosas do que para a geração de nossos avós - moralmente mais rígida). Amamos como quem joga um jogo com regras desconhecidas.Amamos como quem confia no acaso dos dados jogados.
Acontece que o acaso nunca será confiável! Ele presenteia e trai.Só a verdade é confiável. E ´só o amor conhece o que é a verdade´.( Estabelece-se aqui o paradoxo inoxidável)- Verdade essa universal e ao mesmo tempo a mais subjetiva de todas.´Ainda que eu falasse a língua dos homens e falasse a língua dos anjos, sem amor eu nada seria´, disse também o mesmo Renato Russo.
Renato Russo indagou ´Quem inventou o amor?´Cazuza cantou `adoro um amor inventado´. Eles, eu , você, sua vizinha.. todos nós quero crer (mesmo sem admitir). A idéia não é dele e outros poetas (dá-lhe Rimbaud!) tão bons quanto e tão excessivos ou mais já desnudaram o assunto. (Reparem que é uma fixação comun aos poetas. Precisamente por que para se fazer poesia a experiência do amor é primeira... assim me disseram). Sou fã de ambos e concordo, a cada dia mais que o amor tal qual é idealizado só pode ser mais uma invenção social.
Acredito que invenção é fruto de duas coisas: tédio ou necessidade. O amor é o `fruto proibido´ das duas. De proibido é cada vez mais reiventado , afinal é preciso disfarçá-lo a cada vez que ameaça os valores morais e os bons costumes.
A ameaça que hoje implica mudança provém da busca de ambas as partes por um amor sem riscos. Amor tipo descartável, satisfatório e inofensivo. Os românticos feito eu (não de romantismo,sim de nostalgia),com certeza não se identificam com essa busca. É uma pena, posto que provavelmente sofreriam bem menos. Por um outro lado a intensidade lhes favorece tanto para o ruim quanto para o bom - que de bom vira fantástico, quase transcedental. São esses que se permitem ao risco e a aventura singulares e intrínsecos à alteridadade comum ao amor. Em outras palavras - é a adrenalina da montanha russa que se projeta na possibilidade da perda a cada curva - a cada passo dado e igualmente, a dúvida sobre qual passo dar. É a eterna conquista até seu fim.
Já que todas as coisas são findas mesmo, com o amor não poderia ser diferente. Por que então, para algumas pessoas está implícita a aspiração à continuidade e à permanência de laços afetivos que muitas vezes já foram desfeitos ou sequer foram atados - já que para tal, ambas as pontas devem estar envolvidas? Perdão, algumas pessoas - em geral as mulheres. Mulheres realmente são profundamente complexas e há dias que, juro, compartilho do pragmatismo masculino de (pronta-)entrega, feito Vinícius (mais um!) descreveu como a eternidade durável.
A psicanálise defende que o amor surge para complementar-nos naquilo que o sexo sozinho não é capaz de fazer.... é: aquilo que o outro não consegue dar. Normal , já que homens e mulheres não falam a mesma língua e não compreendem imediatamente as carências alheias (com excessão de Chico Buarque, que definitivamente fala as duas fluentemente.. poeta) Assim, o amor - esse amor - só é possível devido as incertezas dos encontros amorosos ( o que hoje representam possibilidades muito maiores e mais numerosas do que para a geração de nossos avós - moralmente mais rígida). Amamos como quem joga um jogo com regras desconhecidas.Amamos como quem confia no acaso dos dados jogados.
Acontece que o acaso nunca será confiável! Ele presenteia e trai.Só a verdade é confiável. E ´só o amor conhece o que é a verdade´.( Estabelece-se aqui o paradoxo inoxidável)- Verdade essa universal e ao mesmo tempo a mais subjetiva de todas.´Ainda que eu falasse a língua dos homens e falasse a língua dos anjos, sem amor eu nada seria´, disse também o mesmo Renato Russo.
31.1.11
Agiotas de afeto ( e por extensão.. de amor)
Cuidado! Os agiotas de afeto estão por toda parte! Espalhados nos lares, nos bares, nas salas de aula e repartições públicas! Infiltrados em nossas vidas, disfarçados de amigos e de amores; de amantes..colaboradores. Com seus discursos dissimulados e ombros dolosos nos estendem a mão pegajosa para jamais soltarem, para que quando, na vez deles precisarem e - por não se contentarem com reconhecimento e mais alguns trocados- cobrarem. E cobram. Cobram a prazo e com juros exorbitantes. Cobram o seu juramento - de igual presença, de igual envolvimento,de igual satisfação, de dever eterno. Assim, meus caros, o prazo nunca se esgota até que você se esgote. Até que a relação se esgote.
Cuidado com os agiotas de afeto! Cuidado também para você não se tornar um. Agiotas de afeto não são o que são por crueldade ou desvelo. A agiotagem de afeto beira uma epidemia! São pessoas carentes e inseguras que não sabem existir se não por essa torta maneira de ser. São pessoas que necessitam da constante e plural aprovação alheia e por isso se submetem à servidão condicional - sim, repito - condicional- dos outros - de seus ´outros´ com a ressalva de que esperam desses a mesma atitude ´em troca´, quando não mais!
Agiotas de afeto cometem o mais egoísta dos crimes. Possessivos, vivem suas relações como contratos (embora , juridicamente, algumas de fato o sejam), onde ambas as partes devem honrar suas obrigações. Pais com seus filhos, namorados, amigos entre si, colegas. Os níveis de expectativa e cobrança com relação aos contratantes (que aliás, nada pediram, tampouco assinaram) nunca estiveram tão altos! As vítimas não sabem mais como agir!
Se você sofre com as intermináveis cobranças de um agiota de afeto e se sente devedor por ingratidão, não se desespere, amigo - há solução! Começe despindo-se de qualquer culpa ou dívida imposta. Você não consumiu nada, portanto, não há conta a ser paga! Liberte-se daqueles que lhe jogam na cara que muito (quase nada) por você fizerem, pois quem necessidade tem de afirmar o que é, em muitos casos prega uma falsa fé - e te fazem crer que o são de fato um refúgio de afago amável quando se está vulnerável. Nunca confie em quem diz ser de confiança.Há coisas que não precisam ser ditas.
Já outras.. precisam ser constantemente relembradas, como estes versos de Drumond em as ´Sem-razões do amor´:
´Eu te amo porque te amo.
Não precisas ser amante,
e nem sempre sabes sê-lo.
Eu te amo porque te amo.
Amor é estado de graça
e com amor não se paga.
Amor é dado de graça,
é semeado no vento,
na cachoeira, no eclipse.
Amor foge a dicionários
e a regulamentos vários.
Eu te amo porque não amo
bastante ou demais a mim.
Porque amor não se troca,
não se conjuga nem se ama.
Porque amor é amor a nada,
feliz e forte em si mesmo.
Amor é primo da morte,
e da morte vencedor,
por mais que o matem (e matam)
a cada instante de amor.´
Cuidado com os agiotas de afeto! Cuidado também para você não se tornar um. Agiotas de afeto não são o que são por crueldade ou desvelo. A agiotagem de afeto beira uma epidemia! São pessoas carentes e inseguras que não sabem existir se não por essa torta maneira de ser. São pessoas que necessitam da constante e plural aprovação alheia e por isso se submetem à servidão condicional - sim, repito - condicional- dos outros - de seus ´outros´ com a ressalva de que esperam desses a mesma atitude ´em troca´, quando não mais!
Agiotas de afeto cometem o mais egoísta dos crimes. Possessivos, vivem suas relações como contratos (embora , juridicamente, algumas de fato o sejam), onde ambas as partes devem honrar suas obrigações. Pais com seus filhos, namorados, amigos entre si, colegas. Os níveis de expectativa e cobrança com relação aos contratantes (que aliás, nada pediram, tampouco assinaram) nunca estiveram tão altos! As vítimas não sabem mais como agir!
Se você sofre com as intermináveis cobranças de um agiota de afeto e se sente devedor por ingratidão, não se desespere, amigo - há solução! Começe despindo-se de qualquer culpa ou dívida imposta. Você não consumiu nada, portanto, não há conta a ser paga! Liberte-se daqueles que lhe jogam na cara que muito (quase nada) por você fizerem, pois quem necessidade tem de afirmar o que é, em muitos casos prega uma falsa fé - e te fazem crer que o são de fato um refúgio de afago amável quando se está vulnerável. Nunca confie em quem diz ser de confiança.Há coisas que não precisam ser ditas.
Já outras.. precisam ser constantemente relembradas, como estes versos de Drumond em as ´Sem-razões do amor´:
´Eu te amo porque te amo.
Não precisas ser amante,
e nem sempre sabes sê-lo.
Eu te amo porque te amo.
Amor é estado de graça
e com amor não se paga.
Amor é dado de graça,
é semeado no vento,
na cachoeira, no eclipse.
Amor foge a dicionários
e a regulamentos vários.
Eu te amo porque não amo
bastante ou demais a mim.
Porque amor não se troca,
não se conjuga nem se ama.
Porque amor é amor a nada,
feliz e forte em si mesmo.
Amor é primo da morte,
e da morte vencedor,
por mais que o matem (e matam)
a cada instante de amor.´
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